Um convite divino ao templo interior

Um convite divino ao templo interior

DATA DA PUBLICAÇÃO: 17/7/2012

Texto retirado do site do autor, Dr. Ézio Luiz, no seguinte endereço: https://migre.me/9W45x

 

Um convite divino ao templo interior

 

“Vai, pois, povo meu, entra nos teus quartos, e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um momento, até que passe a ira”.

(Isaías 26:20)

 

Em tempos de crise, de conflitos, de incertezas, de insegurança religiosa, de momentos tormentosos, a resposta bíblica vem ao encontro da necessidade humana fazendo sossegar o espírito em sofreguidão, como o bálsamo que é aspergido na ferida que dói. Há sempre um acalento divino para o(a) frágil menino(a) que jaz no território das emoções humanas, isto é, para o(a) menino(a) que mora – acordado(a) ou adormecido(a) – nas ruelas do espírito, esperando que o céu o(a) responda e nessa fragilização é que o toque sublime do convite desenhado no versículo em epígrafe se apresenta: sorrindo para o ser que vive e que crê; e crê que por Ele vive.

 

Nesse sentido, o percurso pela (e na) interioridade da ambiência humana é o ingrediente que dá sabor, que vivifica a alma humana, aquela que sufoca o grito interior, que engole a lágrima que teima em rolar dos olhos cansados da ira coletiva, das promessas religiosas recheadas de dogmatismo antiescriturísticos de fariseus e saduceus contemporâneos, sob a justificativa do empirismo e do pragmatismo eclesiástico, em debates inúteis. Como num labirinto tal o homem caminha com as suas meias verdades, mas não chega a lugar algum, porque ele busca lá fora, no outro, nas instituições, nas corporações, mas não está lá, nada encontra lá e cai em frustrações infindas, porque ele olha errado, daí o sofrimento do nada. Deus não está no “onde”; Ele está no “como”. Ele não está no lugar; Ele está no modo de adorar (“em espírito e em verdade” – João. 4;23).

 

É preciso, destarte, mergulhar na essência escriturística sagrada que venceu o tempo, que venceu o espaço, que venceu os homens com suas mentalidades egocêntricas, que venceu o cientificismo oscilante, que venceu os opressores, os heréticos, os “líderes escolhidos” em nome do nada aparente. É preciso entrar, humildemente no templo sagrado interno, pisando-o de mansinho, solenemente, reverentemente: “Deus está no templo”. Decerto, a alma humana possui um vínculo ontológico com o seu Criador, porquanto Ele lhe soprou, nas narinas, a sua essência eterna criadora e lá deixou um pouco de Si: o Verbo Supremo e Seu veículo: o Espírito Santo. Deus não soprou o Seu fôlego no Éden (lugar); Ele soprou nas narinas humanas (templo interior).

 

Com efeito, o ser humano é convidado, no texto bíblico acima transcrito, em tempos de crises existenciais e outras tantas, a ingressar dentro de si e percorrer os “quartos” da alma, adentrar nos porões secretos da existência, nos solos das emoções, numa busca dentro de si. Isso não é uma rota de fuga; isso é uma rota de encontro do “eu” (criatura) com Ele (Criador) num espaço sagrado não feito por mãos humanas, espaço no qual os sentimentos humanos pulsam tão intensamente em busca de sentido que lhe norteie a vida. Afinal, na ira há uma perda: a perda de si e do elo com o outro, em dolorosos desencontros.

 

Sob esse prisma, a indiferença e a imperturbabilidade (do grego: ataraxia) dos estóicos, com eco na linha cartesiana, não trouxeram respostas para a alma do ser humano que sofre diuturnamente em suas buscas sedentas pelo sentido da existência e não encontra lá fora, no tumulto das gentes e nas religiões e suas guerras inúteis. Nesse sentido, a depressão se faz companheira quando o ser foge de si e busca no outro o que não encontra, nem encontrará. Assim é que, o Altíssimo o convida para Si (com maiúscula), mas dentro de si (com minúscula).

 

Ao sentir o seu nada, a sua insuficiência, os seus hiatos, as suas carências, nos cantinhos escondidos das escadarias de sua alma, na morte de sua poesia interior e ao se refugiar no quartinho dos fundos de seu espírito fragilizado, a criatura encontra o Grande Ser que o chama para Si, no “vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei...” (Mateus. 11:28), daí a frágil criatura que, não raro se acha suficiente para si e para o outro, mas sucumbe nos momentos de crise, encontrando no Grande “Eu Sou” o “descanso para vossa alma” (Mateus. 11:29). Não importa, se nos vales ou nos montes externos; é na interioridade do templo que nasce o Sol da Justiça, porque essa é a Sua promessa: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (João. 14:23). Então, a morada é interna; não nas organizações eclesiásticas. E não se há de confundir “Corpo de Cristo” com organização eclesiástica que sustenta um rótulo.

 

Aqui está o grande mistério que não se alcança pela logicidade cartesiana, mas não está fora da razão, porque revelação não exclui razão (não são conceitos excludentes entre si), por isso Paulo vai dizer do “culto racional” (Romanos. 12:1). Essa diretriz também é encontrada em textos veterotestamentários, como se lê com Davi: (Salmo 101:2): “Portar-me-ei com inteligência no caminho reto...” e, mais adiante pede: “... dá-me inteligência para que aprenda os teus mandamentos” (Salmo119:73) e prossegue: “...dá-me inteligência, para entender os teus testemunhos” (Salmo. 119:125); “...dá-me inteligência, e viverei” (Salmo.119:144). Em Salomão se lê: “O Senhor com sabedoria fundou a terra: preparou os céus com inteligência” (Provérbios. 3:19), por isso o profeta Jeremias fala do verdadeiro sacerdote: “e vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentará com ciência e com inteligência” (Jeremias. 3:15). E o que dizer de Paulo, em texto neotestamentário?: “para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em caridade, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus – Cristo” (Colossenses. 2:2).

 

Noutra vertente, Pascal, ao falar das razões do coração que ele (coração) desconhece, ele dizia do homem natural; não do homem espiritual, diferença sobre a qual falou Paulo (I Coríntios. 2: 14-15). São razões que levam ao sequestro de si e ao se deixar sequestrar em sua subjetividade, numa anulação dele mesmo, ele abre a porta e sai de si, encontrando lá fora a “ira” a que alude o texto bíblico escrito pelo profeta messiânico, porque a ira está ali, à espreita, com o escopo de entristecer quem nela cair.

 

Entrar em si é repensar, refletir, meditar, penetrar na sacralidade e, sobretudo estabelecer um diálogo entre o seu “eu” essencial e Aquele que o criou e lhe tornou o que é, e da forma como é. Nessa troca tão importante, de que tratava o servo Jó, ao suplicar: “Ah! Seu eu soubesse que o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. Com boa ordem exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos” (Jó 23:3-4) e acresce adiante: “Porventura segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não: antes cuidaria de mim” (Jó 23: 6), é que faz valer a pena, presença sem a qual o tudo é nada, mas com Ele, o nada é tudo.

 

Por paradoxal que possa parecer, o cativeiro está lá fora (“... no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” – João. 16:33) e lá fora o ser se encarcera, não raro inconscientemente, pelo outro que o subjuga sob o rótulo de uma religiosidade relativa e catequizadora, manipuladora, persuasiva, formatadora, daí o convite bíblico: “fecha as portas sobre si”. Na linguagem do escritor Fábio de Melo, ao falar do roubo de si, argumenta: “esta compreensão antropológica cristã é riquíssima, pois nos sugere a santidade como aperfeiçoamento do que é humano...”.

 

Sob esse viés interpretativo, o “esconder-se” bíblico não traduz em fuga; traduz em encontro no templo sagrado interior; não no templo organizacional eclesiástico carcomido pelas disputas de lideranças e de dízimos, de falsos “profetismos” e questionáveis “revelações”, e é por isso que Estêvão advertiu, em Atos: “Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens ...” (Atos. 7:48). Paulo vai repetir a mesma sã doutrina neotestamentária: “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos. 17:24). É por isso que o ser humano se decepciona, em grande angústia, com organizações porque ele associa Deus às organizações, mas Ele não está lá. Nunca esteve lá.  

 

Ora bem, se Ele não habita em templos organizacionais eclesiásticos, como diz a Sagrada Escritura, como O encontraremos? A resposta vem do próprio texto sagrado: “E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, e eu vos receberei” (II Coríntios 6:16-17). Quando o texto sagrado adverte para o “congregar” (Hebreus. 10:25), tem-se em seu étimo: “gregar” + “com”, isto, é juntos (não significa em casas religiosas) na fé, pois o capítulo nele inserido trata da fé; não de denominações religiosas.

 

Interessante que as grandes experiências do ser humano com Deus, narradas nas Sagradas Escrituras, não estão ligadas às organizações eclesiásticas. Ao revés. A experiência de Abraão, Isaque e Jacó se deu no campo. A de Moisés se deu no deserto. A de Daniel na cova. A de Jonas, no mar. A de Davi e Salomão se deu nos campos de batalha. Em o Novo Testamento, a experiência do cego se deu nas ruas. A do centurião no meio de uma cidade. A da mulher hemorrágica no meio da multidão. A da viúva de Naim, na entrada da cidade. A da multiplicação de pães, num monte. A de Lázaro, num cemitério. A da mulher samaritana se deu perto de um poço. A de Pedro se deu numa praia. A o ladrão, numa cruz. A de Paulo ocorreu numa estrada. A de João numa ilha etc. etc. etc.. Nenhum deles estava ligado à organização. Nenhum em reuniões enfadonhas pesadas. Nenhuma em templos externos. Eles estavam ao ar livre e em liberdade, sem imposições, porque conheceram a Verdade que os libertou.  Essa foi a verdadeira experiência bíblica.

 

Ao contrário. O que se registra no templo externo, por exemplo, no espaço veterotestamentário, é a morte de Joabe (I Reis 2), no altar dentro do templo. No território neotestamentário, o que ficou evidenciado foi quando Jesus entrou no templo externo, feito por mãos (leia-se: organização eclesiástica) e lá encontrou vendilhões. Curioso que não houve interesse do Senhor Jesus em evidenciar a ocorrência de milagres e outros sinais dentro do templo externo, feito por mãos humanas. Os atos do Senhor, praticamente todos, tiveram o cenário no templo interior. Isso é muito sugestivo e assaz maravilhoso, o que confirma o que aqui se registra. Não poderia ser diferente porque tem fundamento bíblico; não fundamento em meras experiências pontuais.

 

Esconder-se nos seus “quartos” interiores implica em adoração verdadeira na experiência cristocêntrica plena e íntima do amor de Deus derramado no Pacto Sacrificial Cristológico Salvífico em Oblação Perfeita, na junção da morte e da ressurreição do Cordeiro Eterno, na dialeticidade “eu-e-Ele”, ou, em melhor dizer: “Ele-e-eu”. Isso sugere a leitura da orientação do Mestre (Mateus. 6:6), no qual se lê: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará”. Esse é um mistério por poucos compreendido, porque quebra a liturgia eclesiástica superficial (ditada e formatada), para conduzir a um entendimento mais profundo. E há um espírito de engano que permeia por aí para desviar o verdadeiro foco bíblico.

 

Mas não é só. Esse convite do “vai, povo meu”, assaz glorioso, conduz a uma ilação segundo a qual o convite é para o povo de Deus e Jesus destaca: “Eu sou o Bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” (João 10:14) e acresce: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor”. Não há vários rebanhos, em divisões denominacionais sectárias, como pretendem as organizações eclesiásticas e seus “líderes” que se guerreiam entre si pela fatia maior do “bolo”, mas um só é o rebanho do Mestre e não se confunde com organizações e ordens denominacionais.

 

Então, quando entramos num templo evangélico (e não importa qual seja porque todos têm defeitos e qualidades) cujo Nome enfatizado é o Senhor Jesus (“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí, estou eu no meio deles” – Mateus 18:20) e o Nome de Cristo não pode ser substituído por qualquer expressão, ainda que respeitável, fechamos os olhos, numa viagem dentro de nosso interior, no templo interior sagrado (templo do Espírito Santo), em comunhão secreta, entoamos um suave cântico, ouvimos a Palavra de Deus, conversamos com o Senhor, derramando todo o ser em libação espiritual, Deus visita o coração dorido e perdoa os erros, inundando a alma remida que adora em sinceridade. Eis a verdadeira adoração.

 

Adorar, decerto, é mais que retórica e palavras sacramentais repetitivas, é mais que cumprimento de regras e dogmas religiosos pesados, impostos, é mais que freqüentar denominações, em pesadas reuniões, e seus sectarismos inebriantes; adorar é se quebrar diante do Altíssimo e derramar todo o perfume contido no pequeno vaso de alabastro em lágrimas aos pés do Mestre. Adorar é sair da soberba, da religiosidade hipócrita e se prostrar em amor e humildade. Adorar é deixar de olhar para o defeito do outro e reconhecer o seu, em súplicas de misericórdia divina. Adorar é entoar um hino com a alma e com as lágrimas nas madrugadas em seu quarto, dentro do qual só o Pai, em secreto vê. Adorar é ingressar numa comunhão interna deliciosa, num suspiro da alma que ama ao Senhor com toda a sua força. A Ele toda honra e toda a glória para todo o sempre. Eis a grande diferença!

 

Na sequência temática, ao se dobrar diante do Altíssimo, entoando aqueles antigos e conhecidos cânticos: “Maravilhosa Graça, maior que o meu pecar...”, “Senhor, vem ficar comigo...”; “Fica, Senhor, já se faz tarde...”; “então minh’alma canta a ti, Senhor: quão grande és Tu, quão grande és Tu...”;  “...mas eu amo essa cruz porque nela Jesus deu a vida por mim, pecador”; “Quando o Jordão passarmos unidos e entrarmos no céu...”; “Preciosas são as horas na presença de Jesus, comunhão deliciosa...”; “Cristo, meu Mestre, sempre há de amar-me...”; “Desde o dia em que aceitei Jesus, a minha vida se transformou...”; “Já refulge a glória eterna de Jesus, o Rei dos reis...” etc., Ah! O coração não resiste. Não há quem não chore. Não há mais ira e tudo se faz calmo porque Ele entra de mansinho (“Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” – Apocalipse 3:20). Que porta? Do templo de pedras? Não! Absolutamente! Do meu e do seu coração! Deus o abençoe, querido leitor/internauta. O meu site é o púlpito que Deus me deu para pregar a Sua Palavra. Renovo a glorificação ao Grande Nome.      

 

POR ÉZIO LUIZ PEREIRA

  

 

 


 

Sobre o autor:

 

ÉZIO LUIZ PEREIRA

Juiz de Direito – ES

Doutor em Teologia (ênfase em Soteriologia) pela Fatef/RJ

Mestre em Teologia (ênfase em Bibliologia) pelo SBTe – MG

Membro de igreja evangélica na linha protestante

Mestre em Direito das Relações Privadas pela FDC – RJ

Especialista em Direito Constitucional pela Consultime - ES

Membro da Academia Brasileira de Mestres e Educadores

Membro da Academia Cachoeirense de Letras

Practitioner em Programação Neurolingüística pelo INDESP

Palestrante, professor, articulista e escritor

Autor de quatorze obras literárias publicadas

Ex-procurador da Caixa Econômica Federal

 

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e-mail: juizezioluiz@gmail.com

 

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