Fé: único meio de graça

Fé: único meio de graça

Por: Dr. Ézio Pereira

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”  (Efésios 2:8)

 Grande equívoco, na exegese bíblica do texto em epígrafe, se instalou na Igreja Romana, no século XVI, quando se pluralizou o “meio” (fé) de se chegar à Graça de Deus, deslocando o favor de Deus imerecido pelo esforço humano, construindo a doutrina dos “meios de graça”, expressão, inclusive, que não se encontra nas Sagradas Escrituras, mas cunhada no entorno da Idade Média. Decerto, a origem da expressão (“meios de graça”) veio do seio da Igreja Católica Romana, a par do advento do movimento da pré-reforma, com foco nos “sacramentos”, consoante bem pesquisado por Champlim (volume 4, p.559). Isso é fato histórico constatado.

Assim é que, ao contrário do que afirma a Carta de Paulo aos Efésios (em epígrafe), para se alcançar a Graça de Deus, o homem deveria se esforçar, “pagando um preço”, com os seus esforços (lembre-se de que Jesus já o fez pelo ser humano). Ocorre, pois, confusão amiúde entre “meio de Graça” e “meios de consagração a Deus”. São conceitos distintos e aqui o discernimento da diferença é significativo, pois não envolve apenas uma simples questão terminológica, mas uma questão de essência, ligada à salvação.

Num primeiro momento de análise, necessário se faz compreender o que seja “meio”, o que seja “Graça” e o conectivo “de” que os liga, discernimento sem o qual se cairá no erro reprovado pelo Senhor Jesus: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt. 22:29). Afinal, não se conhece um conceito sem um mergulho exegético nas palavras que o compõem, notadamente no étimo dos vocábulos e no espírito da mensagem que se pretende revelar numa construção contextual. O estudo é salutar porque um equívoco aceito como dogma inquestionável, durante anos, passa a ser visto como uma “verdade” inquestionável. Contudo, proclama Salomão: “A glória de Deus é encobrir as coisas; mas a glória dos reis é esquadrinhá-las” (Pv. 25:2).

Sob esse enfoque, a literatura sapiencial apócrifa fala da Graça alcançada por esforço de obras, fazendo surgir, desse raciocínio humano, os chamados “meios” para se alcançar a Graça ou a expressão “meios de Graça” (pagamento de penitência, pagamento de promessa, martírio, jejuns, pagamento de ofertas, cantos litúrgicos, leituras sagradas etc.), como se a Graça pudesse ser alcançada por meio de esforços humanos. Contudo, a expressão: “meios de Graça” não é bíblica, nem poderia ser, pois a Bíblia revela apenas um meio de Graça, conforme se vê no texto acima: a fé, conforme será aqui demonstrado, à luz dos ensinamentos bíblicos.

 Decerto, o problema se instala porque o ser humano não é inclinado a aceitar a sua passividade no processo de salvação; necessita de envidar esforços, contudo o sacrifício de Jesus foi soberano e suficiente (“Tudo está consumado”), razão pela qual o Senhor Jesus ganha centralidade absoluta e suficiente no processo de salvação (“a minha Graça te basta”). Nem se diga que a doutrina dos “meios de graça” emana de “revelação divina”, pois não existe “revelação divina” que transgrida os princípios bíblicos, conforme ficará demonstrado nesta singela incursão teológica. Afinal, o Senhor não é Deus de confusão e de incoerências e a Sua Palavra é suficiente. 

 Como um adendo salutar é importante que se consigne que a salvação é um processo, visto esse, sob o ponto de vista estrutural, como uma sucessão de atos sucessivos subseqüentes em conexidade causal. Não pode ser vista, em ruptura, como um ato (eleição) e um processo (aceitação), como se fosse duas grandezas distintas vinculadas pelo conectivo “e”, pois o primeiro ato (eleição) faz parte do processo inteiro (está nele inserido), de sorte que não se trata de dois círculos paralelos tangentes (ato e processo), mas de círculos concêntricos, numa relação de continente (processo) e conteúdo (atos). Logo, o processo de salvação é um todo; não uma grandeza fragmentada em atos distintos desvinculados. É preciso um discernimento profundo e entender, do ponto de vista ontológico/teológico, a base conceitual. Afinal, não se pode fragmentar, setorizar ou departamentalizar o Projeto de Deus; ele é uno.

 Curioso é que uma das causas – quiçá a mais intensa – de destruição do povo de Deus é a ausência de conhecimento. Tanto que, em texto veterotestamentário, encontrado em Oséias 4:6, o Senhor Deus adverte: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim (...)”. O rei Salomão, no livro de Provérbios, dando proeminência à inteligência, exorta: “Adquire a sabedoria; adquire a inteligência” (Pv. 4:5). “Sabedoria”, no plano espiritual; “inteligência”, no plano cognitivo. Essa ilação emana da própria Palavra de Deus.

  Em retorno ao tema: a afirmação segundo a qual o esforço humano conduz à Graça (“meios de Graça”), parte da indisfarçável premissa da salvação por obras, de sorte que o ser humano para alcançar a Salvação deve realizar algum “esforço”. Entrementes, no plano da salvação, a ênfase está totalmente em Deus; não no ser humano que a recebe pela fé. Pensar o contrário estar-se-ia inserindo no conceito de Graça de Deus, a base meritória humana, como um “preço” a ser pago para se obtê-la, subestimando o sacrifício do Calvário. Ora, se ele não foi suficiente, o homem precisa empreender uma “ajuda” (!).

“Meio” (significa: mediante; o que vai mediar; intermédio; permeio), na linguagem do dicionarista, é a “via pela qual se alcança um fim ou um objetivo”. Assim é que, a rigor, não se alcança um fim sem passar pelo meio, ou alternativamente, “meios”, como uma pluralidade de caminhos. Deveras, o “meio” é o que está entre dois pontos: o início e o fim. Não se alcança um (fim) sem passar pelo outro (meio). Para que o ser humano possa alcançar a Eterna Graça de Deus, deve utilizar – tão só – um meio, instrumentalizando o acesso à Graça: a fé. Única e exclusivamente.

Vai confirmá-lo Paulo escrevendo aos Romanos (Rm. 5:2): “por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes (...)”. O que mais precisa ser dito? Basta crer! Então, para quem pensa diferente, o equívoco está evidente, do ponto de vista bíblico. Ou estaria Paulo equivocado? Decerto, a presente assertiva está em sintonia com o ensinamento de João: “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendotenhais vida em seu nome“ (João 20:31). Estão presentes os elementos fé (“crendo”) e graça/salvação (“tenhais vida em seu nome”).

Nesse quadro bíblico, Paulo escreve aos Efésios e não deixa dúvida de que o único meio de Graça é a fé – verdadeiro dom de Deus, na dicção de Efésios 2:8 – para quem tem olhos de bem enxergar. Senão vejamos, seguidamente.

“(...) nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência (...) em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo (...) ”. (Ef. 1:5-8 e 13).

De seu lado, “Graça”, da raiz grega: char = charis transliterada para o latim: caritas, indica produção de bem estar ao ser humano, como uma variante de charisma = “dádiva graciosa”’. Na hermenêutica bíblica é “favor imerecido” ou “favor sem mérito”; “doação de Deus” (portanto, nada se faz por merecê-La). Quando aquele ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus, ao olhar para a frase que estava no madeiro do Senhor (“Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”), ele creu (usou a fé) que ao seu lado estava o Rei e que Aquele Rei possuía um Reino Eterno e – mais ainda – que Aquele Rei tinha (e tem) poderes para levar o malfeitor ao Seu Reino e pediu o acesso, em seu último momento de vida, crendo que receberia. Pediu e recebeu a Graça por sua fé.     

Indagação que se faz: qual o esforço que aquele pobre homem fez para alcançar o “favor imerecido”? Ele apenas usou a fé; nada mais. Pode-se afirmar que ele alcançou a Graça? Sim. Ele utilizou os “meios” pregados pela Igreja Romana (e adotados, mais tarde, por algumas igrejas protestantes/evangélicas)? Não. A sua “penitência” (crucificação) foi que o salvou? Não, pois o outro ladrão também “pagou” o mesmo “preço”, e intui-se que não alcançou. Então, à obviedade, não são “meios”.

 “Meios de graça” tal como dogmatizada pela Igreja Romana (e algumas outras igrejas evangélicas), é um caminho de baixo para cima (como a Torre de Babel, construída com esforço humano), em direção a Deus; a Graça de Deus parte da eternidade (de Deus) para baixo, para o homem necessitado desse favor maravilhoso, sem a participação da frágil criatura. Quando a Graça é procurada “mediante” comportamentos humanos, com um “preço pago” (?), cai-se num desvio da sã Doutrina, se estabelece uma heresia e se transforma num “dogma religioso” equivocado, dizendo de outra forma, cai-se num desvio doutrinário teológico, portanto contrário aos ensinamentos bíblicos, ainda que com boa intenção. Pensar o contrário estar-se-ia criando uma interpretação desvirtuada da Sagrada Escritura, numa interpretação forçada.

 Portanto, constitui heresia, (do ponto de vista bíblico) asseverar que comportamentos de esforços humanos (jejuns, vigílias de oração, martírio físico, cânticos, penitências, leituras à Bíblia etc.) são “meios” de alcançar a Graça de Deus, naquilo que ficou conhecido, erroneamente, como “meios de graça” (“meios?”). Tais comportamentos (nobres, por sinal) podem ser conceituados como “meios de consagração” ou “meios de santificação”, como um processo de separação da Eclesia (Igreja) com relação ao mundo. São verdadeiras armas que compõem a armadura do servo de Deus. Segue-se daí que não são “meios de graça”. São essências distintas, envolvendo conceitos diferentes. É preciso ter olhos de bem enxergar e humildade para repensar!

 Graça e Salvação são termos indissociáveis, porque o primeiro leva ao segundo, num vínculo necessário, conforme o texto paulino aqui examinado. Sob esse viés, o Novo Testamento emprega o termo charis cento e cinqüenta e cinco vezes, máxime nas Epístolas de Paulo (cem vezes), especialmente Coríntios, Romanos, Gálatas e Efésios. Curioso, sugestivo e maravilhoso é que, quase sempre, a palavra “graça” vem acompanhada da palavra “fé”. Disso resulta, sem receio de equívoco, que o único elemento condicionante para se alcançar a Graça é a fé, elemento oriundo da eternidade, portanto de Deus, para o ser humano. Logo, o único “meio de graça” – do ponto de vista bíblico – é a fé. Não mais. 

Na “Graça” há espontaneidade do adorador. Não há imposições. Nesse aspecto, houve um grande desvio da essência. A Igreja Medieval utilizava as penitências, martírio, jejuns como “meios de imposição” (camuflados como “meios de graça”), sem os quais não haveria o “perdão”; não haveria participação do ofertante na liturgia e o adorador era excluído da participação da liturgia, se não cumprisse os chamados “meios de graça”, nem poderia ter acesso aos cargos eclesiásticos, portanto ficava “disciplinado”, ou “no banco da igreja”, “proibido de pregar no púlpito da igreja” etc. como um “castigo divino” (“divino”?), pelo descumprimento dos “dogmas”. Mera religiosidade e usos/costumes sem amparo bíblico.  

 Criou-se, destarte, a humanização da adoração, mas “os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade” (João 4:23 = na Graça do Deus Trino). Então, quem não participasse, por exemplo, das “missas” pela madrugada ou não fizesse a sua “penitência” diária, não poderia participar da liturgia porque não estava cumprindo os dogmas ou chamados “meios de graça”. Grande equívoco da interpretação bíblica, como tantos outros da época. 

A rigor, não se alcança o fim (Graça) sem passar pelo meio (fé), porque o “meio” dá acesso ao “fim” – e aqui é preciso discernimento. À sombra dessa idéia, a fé é o instrumento de justificação, conforme se lê em Romanos 4:16: “Essa é a razão por que provém da , para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa (...)”. Não há dúvida alguma; basta examinar o Texto Sagrado, sob a ótica do contexto da mensagem, ainda que se pregue o contrário da linha da Sã Doutrina, desvirtuando o Projeto de Salvação, muito bem discernido pelo Apóstolo Paulo. Uma tradição “revelada” da igreja não pode sobrepor à linha doutrinária bíblica. Não se deve acrescentar “doutrinas” à margem do Texto Sagrado, conforme adverte Apocalipse 22: 18-19.

 Nos milagres realizados pelo Senhor Jesus, a Sua preocupação era perguntar se o necessitado cria: “podes crer?”; “se creres verás a glória de Deus”; “crês?”; “a tua fé te salvou” etc. Ele não perguntava: “cumpriste os meios?”. A propósito, Lucas dirá, em Atos 15:11: “Mas cremos que seremos salvos pela graça (...)”. Paulo, em corroboração, aduz: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”, em Romanos 5:18 e acresce: “E disse-me: A minha graça te basta (...)”, em II Coríntios 12:9. Com efeito, a graça não é do ser humano; é de Deus; nem se alcança por esforços (“meios”?).  

Em Efésios 4:7, Paulo escreveu para a igreja em Éfeso, quando estava preso em Roma: “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo”. Ora bem, não teria sido “comprada” pelos “meios”, “segundo” os esforços de cada um? Absolutamente! A bênção apostólica encontrada, por exemplo, em regra, nos finais das epístolas, como em Hebreus 13:25: “A graça seja com todos vós. Amém”, demonstra a dádiva, isto é, a oferta divina; não a compra pelo “preço humano”, através dos “meios de graça”. Algumas igrejas evangélicas perceberam o equívoco e aboliram essa doutrina anti-bíblica; outras (em menor número) não.

Do ponto de vista bíblico, “Graça” é a manifestação de favor ou bondade sem se relacionar a valor, justiça humana ou mérito da pessoa que a recebe, vale dizer, independentemente do que a pessoa merece. Nesse enfoque, a Graça é um dos atributos principais de Deus e Ele não negocia com o ser humano. Ela está intimamente associada à misericórdia, amor, compaixão e paciência. Não se pode conceber a idéia segundo a qual o cristão que utiliza meios de esforço humano (jejuns, vigílias, martírios, penitências, dízimos etc.) alcançará a Graça, como se fosse uma troca, como se fosse um câmbio, como se fosse uma negociação ou um “tome lá; dá cá” (só darei a Graça se você pagar o “preço” e passar pelos “meios”). Absolutamente! Do contrário, anular-se-ia a essência da Graça e a morte do Senhor Jesus não teria sido suficiente o bastante, daí a “necessidade” de “complementação” por parte da criatura, em relação ao Criador. Isso é total heresia e não pode prevalecer.

Graça – diga-se uma vez mais – é favor imerecido, embora ela seja desfrutada dentro da Aliança. A Graça de Deus foi revelada através do Pacto de Salvação em Cristo no Calvário e a Sua vitória sobre a morte. Ele – Jesus – foi a encarnação da Graça, por sua morte e ressurreição maravilhosa. Então, a Graça de Deus revelada em Jesus Cristo e operada pelo Espírito Santo, é concedida aos seres humanos para a salvação, segundo as Sagradas Escrituras, independentemente do que o homem possa oferecer a Deus. Ao homem cabe aceitá-la pela fé.

A propósito, o Salmista exclama: “Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” (Sl. 116:12). Ele reconhece que não pode usar esforços humanos (abstinências e outros “meios”) para alcançar a Graça e ele responde, adiante: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor” (Sl 116:13). Ele fala, profeticamente, exatamente da fé como único meio de Graça. Então, o rei Davi afasta a doutrina errônea dos “meios de graça”. Ele adota a fé como único meio de graça.

 Não se conquista a Graça por “meios” de esforço humano; depende da misericórdia de Deus (“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” – Romanos 9:15). Essa misericórdia deve ser acompanhada da confiança (fé) na oferta divina, conquanto não merecida. Não mais; porém não menos. Um jejum realizado pelo crente não o levará à graça, como favor sem mérito. Poderá levá-lo a uma consagração ao seu Criador. A graça depende de Deus; não do ofertante. Aqui ocorre confusão teológica amiúde. Portanto, a doutrina dos “meios de graça”, à míngua de fundamento bíblico, não se coaduna com o evangelho neotestamentário.

A conclusão única, à luz das Sagradas Escrituras, é que existe um meio de Graça: a fé, que vem de Deus para o homem e volta para Deus; é cíclica. Tanto que o Senhor ensinou a pedir fé, de sorte que ela é dada (não comprada ou barganhada); vem de cima; vem da Eternidade. O que se vem a dizer é que atos humanos tais como: jejuns, orações, leitura bíblicas, vigílias, cultos pela madrugada, cânticos etc. não são – de forma alguma – “meios de graça”; são verdadeiros meios de consagração, armas poderosas, mas não são condições de recebimento da Graça. Não são veículos (“meios”) de acesso à Graça Eterna, sob o enfoque da Palavra de Deus. Esse esclarecimento é oportuno e necessário.

Pensar o contrário estar-se-ia contrariando toda a essência da Nova Aliança (inserida em o Novo Testamento). Tanto que o texto ora sob comento, termina por afirmar: “isso não vem de vós; é dom de Deus”, portanto não é por “meios” de esforço humano; é um dom de Deus e se é dom de Deus (leia-se: dádiva de Deus), não pode ser objeto de barganha, do tipo: “eu jejuo e o Senhor me concede a Graça”. E quem, sob o enfoque bíblico, poderá afirmar o contrário?

 Com efeito, no Projeto de Salvação, o Senhor Jesus ganha centralidade absoluta e exclui a participação do esforço humano, a não ser a fé (que não constitui esforço humano). Di-lo João, no quarto evangelho: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3:16). O Texto fala de Graça, de fé e de doação de Deus; nada mais. Poder-se-ia acrescentar algum esforço humano? A resposta é intuitiva, para quem pretende seguir a Bíblia em sua essência.

 Na seqüência temática, é significativo asseverar que Salvação não é recompensa, nem salário; é dádiva, conforme Efésios 2:8. Assim é que, fazemos boas obras porque somos salvos; não somos salvos porque fazemos boas obras. Não se confunde o antecedente com o conseqüente. A verdadeira Obra para a Salvação já foi concluída na cruz, quando Jesus bradou: “Tudo está consumado”. “Tudo”: o quê? O Projeto de Deus para a salvação do ser humano. Nada podemos acrescentar a ele, nem dele podemos subtrair, por mais que queiramos, na boa intenção, oferecer um pequeno “esforço humano”.

 Essa idéia bíblica da graça como favor imerecido reforça sobremaneira a misericórdia divina; reforça a soberania de Deus e a dependência humana; reforça a grandiosidade de Seu Ser Absoluto. Há um louvor antigo que proclama: “Maravilhosa Graça! Maior que o meu pecar. Como poder contá-la; como hei de começar?”. Ela é alta e sem fim, porque é eterna. Entender que a submissão a um jejum, por exemplo, é “meio de graça”, equivale a entender que a Graça é a “recompensa” daquele que se submete ao “meio”, daquele que cumpriu o jejum determinado, o que não é verdade.

 Diz o texto bíblico, com todas as letras e em bom tom: “Pela graça sois salvos, por meio da , e isto não vem de vós, é dom de Deus, não vem de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8). O vocábulo “meio” está no plural? Não!.Logo, temos, numa relação seqüencial deduzida do texto de Efésios: Homem → Fé → Graça → Salvação → Deus. Onde Fé é o instrumento (meio, no singular) do instrumento (Graça) para a finalidade (Salvação Eterna). “Para que ninguém se glorie”, porque a glória não é do homem; é de Deus. Alguns acreditam (e muitos!) que vão chegar à Graça usando aqueles “meios” acima mencionados. Equívoco! Graça é favor de Deus sem merecimento e sem esforço humano. Essa compreensão é fundamental para o cristão, crente (entendido como aquele que crê), servo de Deus, que porfia por essa Graça Maravilhosa. 

Nessa linha de estudos, o que nos leva à salvação? A graça de Deus. Como (meio) chegamos à Graça (fim) de Deus? Por “meio” da fé. Eis a verdade bíblica. Existem meios importantes de consagração a Deus: jejuns, oração, leitura à Bíblia, louvores etc. Lembre-se de que apregoa Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”: um dos principais lemas da Reforma Protestante ocorrida no século XVI. Retirar o caráter meritório do esforço humano do Projeto de Salvação pela Graça de Deus foi o que os reformadores insistiam, contra a mentalidade religiosa, anti-bíblica, tradicionalista e conservadora da época.

Em sua tese de doutorado em Teologia, Lutero, no início do século XVI, cujo título monográfico era: “Sola fide et sola Scriptura”, em transliteração: “Só a fé e só a Escritura Sagrada”, defendia a fé como o único meio de graça e a Bíblia como única fonte reveladora da voz de Deus – fora da qual não existia revelação – afastando as encíclicas papais e outras criações humanas, “revelações” sem fundamentos bíblicos. Aquele reformador, com bom discernimento alterou o rumo da Igreja Fiel. Assim, Lutero pregou as suas 95 teses do “lado de fora” da porta, pois “do lado de dentro”, não surtiria efeito. Ele sabia que a divulgação era necessária. 

 Não adianta dar uma “ajudinha” a Deus para alcançar a Graça, utilizando “meios”. Então, Deus age sozinho e o ser humano apenas crê. Salvação é pela Graça e é puro ato de Deus. A fé é fruto da atuação do Espírito Santo. Essa idéia foi seguida por Lutero, Calvino e outros reformadores. As boas obras são realizadas como obrigação do cristão, não como “meio”; não como “causa”, mas como “conseqüência” de quem alcançou a salvação. Não se prega a exclusão das obras, mas elas devem estar em seu devido lugar, como conseqüência de uma causa anterior. Não se alcança a Graça e a Salvação pela oferta de esmolas, pois pensar desse jeito, concluir-se-ia que aqueles que não possuem recursos financeiros, não seriam salvos, o que levaria a um absurdo.

Com efeito, a vontade de Deus não é determinada pelos comandos eclesiásticos e as encíclicas “reveladas” (?) dentro das Catedrais de Roma, mas por livre exame das Escrituras Sagradas. Não há esforço humano pessoal porque “isso não vem de vós; é dom de Deus”. Em melhor dizer: é livre favor divino, temperado com a eterna misericórdia divina. A fé não é a causa; é o meio (leia-se: único meio). Pensar o contrário estar-se-ia desvirtuando a essência da Palavra de Deus. Deveras, os maiores inimigos de Cristo foram aqueles que o crucificaram: os religiosos dogmáticos que impunham aos fiéis fardos pesados para demonstrar “santidade” Contudo, o fardo do Senhor Jesus é leve. Se o fardo está pesado, não é dEle!

 Pouco antes do movimento reformador, no tempo dos pré-reformadores, a Igreja Romana, ao contrário da fé como único meio de Graça (conforme doutrina do Apóstolo Paulo) pluraliza, criando os “meios” de graça ligados aos “sacramentos”, conforme bem delineado e constatado por Champlim (vide referências), estabelecendo os meios de consagração a Deus, verdadeiras armas poderosas no combate cotidiano, como veículos de alcançar a Graça de Deus, confundindo, destarte, uma situação por outra, misturando os conceitos. E não se diga que “meios de graça” não esteja se referindo à Graça Salvadora de Deus, mas a um benefício secundário, porque esse entendimento demonstra desconhecimento do idioma original (grego) com o qual foi escrito o Novo Testamento (no domínio da cultura helenística). Decerto, os chamados “meios de graça” era uma das formas de dominação religiosa e de “catequizar” os fiéis, na época da Idade Média.

Remontando à cronologia da igreja, observaremos que um segmento da doutrina protestante, em dado momento histórico, abraçou os chamados “meios de graça”, conforme se vê na doutrina atual. A propósito, o Pastor Teólogo Presbiteriano, do século XIX, Charles Hodje[1], afirma (equivocadamente, diga-se de pronto) em obra clássica: “Os meios de graça, segundo as normas de nossa Igreja, são a Palavra de Deus, os Sacramentos e a Oração”. Não se pode comungar de seu pensamento – com o devido respeito – porque desvirtua a fé como único meio de graça.

 Já se afirmou – em simbologia bíblica equivocada – que as cinco pedras que Davi colocou no alforje para combater o gigante Golias diziam respeito aos “meios de graça”. Contudo, Davi não se utilizou dos esforços humanos gerados por si. Decerto, ele usou a “Pedra” (num plural de intensidade ministerial – cinco ministérios de Jesus); ele utilizou, profeticamente, a fé no Senhor Jesus (que é a Pedra), de forma profética. Há que se ter discernimento. E se Davi usou apenas uma “Pedra” para o combate, então ele teria ignorado os outros “meios de graça”? Deixou guardados os outros “meios” em seu alforje, porque não eram necessários? A pergunta ecoou sem resposta.

“Isso não vem de vós”. Logo, os comportamentos de esforços humanos ficam excluídos como “meios” (“meios”?) de Graça. Fé é dom de Deus (“não vem de vós; é dom de Deus”). Importa salientar que fé não se confunde com “crença popular”. Salvação não é realização humana; é dádiva outorgada por Deus ao ser humano, na operação da Trindade Eterna. Diga-se uma vez mais: é uma operação do Deus Trino. Transcende ao humano; é produto divino que foge da logicidade racional. Nesse aspecto, o homem quer complicar o que Deus simplificou.

Entrementes, como desconstruir uma “verdade dogmática” religiosa construída e sustentada durante séculos? No Evangelho de João (Jo. 2: 19-20), Jesus propôs, de forma metafórica, destruir o santuário que fora edificado em quarenta e seis anos e reconstruir em três dias, os fariseus se escandalizaram. Afinal, como jogar por terra uma “verdade dogmática” edificada por mais de quarenta e seis anos e reconstruí-la, como a Verdade Bíblica, em três dias? Como admitir o equívoco dogmático pregado por gerações? É preferível, para não se fragilizar e não se “expor”, permanecer no erro, segundo aqueles religiosos. A resposta está na Bíblia: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt. 22:29). Nenhum dogma religioso que contrarie a Bíblia pode ser recebido como “revelação”, porque Deus não se contradiz; Ele é a Verdade e n’Ele não há sombra de variação.

Em tom de conclusão, é importante ressaltar que a finalidade para a qual foi confeccionado este singelo estudo bíblico não é a de criticar um posicionamento religioso ou espiritual, não é a de se rebelar contra dogmas de organizações eclesiásticas, não é a de combater denominações, não é a de criar polêmicas, não é a de fomentar espírito de rebelião, mas trazer uma análise séria do Texto Sagrado, à luz de sua essência espiritual, num dos temas mais polêmicos do Cristianismo envolvendo Fé, Obras, Graça e Salvação, para uma (re)leitura de reflexão e meditação, com apoio na substância bíblica; não mais. Deus abençoe o leitor e o conserve fiel até a volta do Senhor Jesus, como na exclamação apregoada, pelo Apóstolo Paulo, em I Coríntios 16: 22: “Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema; maranata”.

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YOUNGBLOOD, Ronald F. Dicionário ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004.

 

Sobre o autor:

Dr. ÉZIO LUIZ PEREIRA, Juiz de Direito – ES; evangélico, Mestre em Direito das Relações Privadas pela FDC – RJ, Mestre em Teologia (ênfase em Bibliologia) pelo SBTe – MG, Especialista em Direito Constitucional pela Consultime - ES, Membro da Academia Brasileira de Mestres e Educadores, Membro da Academia Cachoeirense de Letras, Practitioner em Programação Neurolingüística pelo INDESP, Palestrante, articulista e escritor, Autor de quatorze obras literárias publicadas, e-mail: juizezioluiz@gmail.com

Suas publicações: "Bíblia: além da letra", "Eclesiastes: além da letra", "Trindade Eterna: exame á luz da revelação" e "diálogos com Jesus: dez encontros inesquecíveis".



[1] HODGE, Charles. Teologia sistemática. Trad. Valter Martins. São Paulo: Hagnos, 2001, p.1367.

 


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