A viagem paulina: o naufrágio da embarcação e um oportuno ensinamento

A viagem paulina: o naufrágio da embarcação e um oportuno ensinamento

Por: Ézio Luiz Pereira

Em 7 de janeiro de 2013

 

 

“Mas agora vos admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas somente o navio”.

(Atos 27:22)

Lá estava o Apóstolo Paulo pronto para a sua "quarta viagem" rumo à Roma. Decerto, ele se lembraria de suas três primeiras viagens missionárias: a primeira, neófito na fé cristã (mas com maturidade suficiente), ele se dirigira à Antioquia, Salamina, Pafos etc.; a segunda, direcionou para Alexandria, Derbe, Listra, Beréia etc.; a terceira, para Éfeso, visitando Troas, Cesaréia etc. Essa quarta e última, a rigor, não mais como missionário enviado, mas como prisioneiro, na qual se deu o naufrágio e o livramento, através dos quais Deus nos move a ofertar esta pequena reflexão.

Com efeito, é nessa quarta viagem paulina que Deus nos ensina que o importante a ser preservado não é a "embarcação" (leia-se: "organização religiosa"), que tanto se defende amiúde, e que pode sucumbir. Ao revés. O importante é, para o Senhor, a alma humana. Afinal, a Sua promessa de livramento e salvação se volta para o ser humano; não para a denominação religiosa, seja lá como se queira rotulá-la. Isso implica numa necessidade de reflexão e repensamento, dentro do modelo bíblico.

Numa narrativa emocionante, detalhista e dramática, Lucas (o escritor do livro de Atos dos Apóstolos) nos brinda com um agradável ensinamento para as "tempestades da existência humana", num relato fascinante de coragem e fé. Nessa quadra, o centurião que custodiava Paulo e outros prisioneiros, deparou-se com um navio que partiria de Cesaréia até Sidom (não muito longe de Trôade), num percurso aproximado de 130 quilômetros em um dia. Naquele momento histórico Roma importava parte dos cereais do Egito.

Em Sidom foi permitido a Paulo visitar alguns amigos. Mercê dos ventos vindos do oeste, a viagem de Sidom para Mirra (ou Mira, um porto marítimo da Lícia), costeando a ilha de Chipre, foi difícil. Dali tomaram outra embarcação (às vezes o Senhor permite alterar a "embarcação", no caminho da fé) em direção à Itália, embarcação essa que vinha do Egito e levava 276 passageiros. De Mirra à península de Cnido, os 200 quilômetros foram tormentosos, em virtude dos ventos contrários. Era preciso coragem; era preciso fé. Naquele momento o piloto direcionou a embarcação para sudoeste rumo a Creta, atravessando o Cabo de Salmona e, a despeito das agruras marítimas, chegaram a "Bons Portos". Que alívio! Mas não era o fim da viagem! Estavam no início daquela aula de perseverança e fé.

Custodiados pelo centurião romano, os navegadores não sabiam o que estava por vir. Aqui o escritor focaliza o momento decisivo da viagem, pois aquele centurião deveria escolher se invernava em Bons Portos ou prosseguia para chegar ao Porto de Fenice, na Costa Sul de Creta, pouco mais de 60 quilômetros. Paulo, com a mensagem divina, entra em cena, recomendando permanecer em Bons Portos. Não é bom sair de "Bons Portos": não se deve deixar Jesus, o nosso "Bom Porto". Ainda assim, em mares bravios Deus proporcionará grandes ensinamentos!

É possível que estivessem entre o final do mês de setembro e início do mês de outubro, pois que o texto faz menção ao "Dia do Jejum" (décimo dia do mês de Tisri), como referência ao "Dia da Expiação", do calendário judaico. Decerto, Paulo já presenciara três naufrágios (cf. II Coríntios 11:25) e essa experiência lhe dava legitimidade para aconselhar. Todavia, Júlio, o centurião, oficial romano, não lhe dera crédito, preferindo a opinião do piloto e do capitão do navio (não raro seguimos a "opinião" de nosso "eu" que governa os nossos passos ou a do "líder" eclesiástico, à frente da "embarcação"). Isso nos leva, não raro, à ruína ou ao naufrágio na vida espiritual.

Quando um suave vento Sul surgira convidativo, não tiveram dúvidas de que Paulo teria se equivocado. À primeira olhadela, tudo parecia bem; tudo parecia calmo e sob controle ("há caminhos que ao homem parece ser bom..."). De súbito, no entanto, o quadro se transformou! Aquele sereno vento Sul se reverte em um tufão de vento, rotulado de "Euroaquilão", cujo vocábulo revela uma aglutinação do grego e do latim (grego: "euros" = vento leste e latim: "aquilo" = vento norte), que os levou à ilha de Clauda.

Entrementes, aquela tempestade foi se intensificando, ganhando proporções incontroláveis, razão pela qual tentaram amarrar cordas ao redor do casco do navio para evitar a sua destruição, pois eles não contavam com o elemento surpresa, permitido por Deus para lhes ensinar algo que até então não sabiam. Nesse compasso, ver-se-á que o ser humano tenta "amarrar" a sua "embarcação", defendendo-a a todo custo, como se fosse a sua vida. No dia seguinte, lançaram ao mar as cargas de cereais (o alimento, que é a "doutrina da embarcação", começara a se perder, fazendo nascer disfarçadas heresias que substituem o verdadeiro modelo bíblico). E aí reside o perigo que chega sorrateiramente.

No terceiro dia, a própria armação do navio se perdera. Seguidamente, o quadro tempestuoso os impede de ver o sol e as estrelas, através dos quais se guiavam. É no auge da tormenta espiritual que o crente tende a não conseguir ver o "Sol da Justiça", notadamente quando ele dá ouvidos ao "piloto"; não à "voz da profecia" (instrumentalizada por Paulo). Tudo isso porque a diretriz divina não fora observada. Decerto, a crise não faz o servo de Deus; ela revela de que ele é feito, o seu caráter e o seu nível espiritual. Se ele apenas cumpre "dogmas eclesiásticos revelados", estará fadado a naufragar.

Naquele momento Paulo - que era acompanhado pelo amigo Aristarco de Tessalônica e possivelmente pelo próprio Lucas, que usa o vocábulo "nós", para registrar a sua presença - transmite um recado de Deus, altamente significativo, cuja base bíblica está em epígrafe: a embarcação iria se perder, mas as almas humanas seriam poupadas. Com efeito, Deus não tem compromisso com qualquer "embarcação" (leia-se: "organização eclesiástica"), como pretendem os sectaristas, por "melhor" que seja e mais imponentemente bíblico que seja o seu rótulo ("igreja verdadeira"; "construção"; "projeto divino"; "obra"; igreja A, B ou C ou outra que a criatividade humana crie); Ele tem compromisso com a alma humana, pois que ela é templo do Espírito Santo.

Curioso que durante as duas semanas que ficaram no mar, a "embarcação" os fez desviar em 800 quilômetros, aproximadamente, do alvo almejado. Isso é bastante sugestivo, do ponto de vista teológico e espiritual. Assim é que, a "embarcação", não raro, nos faz distanciar do verdadeiro modelo bíblico e do Alvo, embora possa ser útil por um tempo determinado. Contudo, sem a "embarcação", a finalização foi fascinante, com o livramento e a salvação das almas que se aproximaram do "Alvo da Soberana Vocação", em Cristo Jesus.

Na sequência da narrativa lucaniana, encontravam-se à deriva no Mar Adriático e a "embarcação" nada podia fazer, porquanto ela - já desgastada - estava se desvanecendo e perdendo o seu brilho de outrora. Todavia, as tempestades e as "embarcações" fragilizadas não conseguem frustrar os sobranceiros propósitos de Deus. A julgar pelo barulho das ondas, o navio se dirigia para as rochas pontiagudas, daí porque lançaram as quatro âncoras ao mar. Num primeiro momento - e "há tempo para todas as coisas debaixo do sol" - a ordem era para não abandonarem a embarcação. Num segundo momento, entretanto, a ordem era contrária à primeira, pois a embarcação havia encalhado e as ondas começavam a destroçá-la. Só lhes restava abandonar a "embarcação", ainda que o apego humano e natural lhes causasse resistência. Deveriam nadar para a terra segura, a ilha de Malta (cujo significado é: "Refúgio").

Quando aquela embarcação foi à ruína, alguns, os que não sabiam nadar, se apegaram, com todas as forças, aos destroços remanescentes da "embarcação"; outros, porém, foram nadando sem se apegarem aos pedaços de madeira destroçados (leia-se: "destroços religiosos ou organizacionais"). Altamente significativo salientar que o que importava era (e é) chegarem à terra firme salvos da fúria das ondas, salvos à ilha de Malta, um bom refúgio seguro. É recomendável destacar que aqueles que se apegaram aos destroços não deveriam criticar aos que foram nadando sem o apego ao restante da "embarcação", tanto quanto os que foram nadando sem aquelas "bengalas marítimas" também não deveriam repreender aos que se apegaram aos destroços da "embarcação". O importante era chegar em terra firme.

À sombra desse raciocínio, urge salientar que o foco protetor de Deus não é a "embarcação", que, eventualmente, pode soçobrar pelas circunstâncias, até pela sua imponência sectária e soberba; mas a alma humana, em favor da qual Cristo se entregou em sua infinita bondade, cumprindo o Plano da Redenção. Esse naufrágio da "embarcação" não deve trazer frustração, tristeza, mas alegria de saber que em Jesus - e só nEle - temos o Caminho para o Pai Eterno, com a Consolação do Espírito Santo. Portanto, a oração do crente não deve ser voltada para poupar a "embarcação" em detrimento da alma humana, invertendo os valores eternos. Deveras, o naufrágio da "embarcação" poderá fazer parte dos insondáveis propósitos de Deus, para um salutar e mais profundo ensinamento. Tal se deu no episódio bíblico neotestamentário, cuja narrativa se aplica à igreja invisível contemporânea.

Sob esse viés, nunca é demais lembrar de que, para Deus, não é relevante o "onde" cultuá-lO ("Monte Gerizim" ou "Monte Jerusalém"); o que importa, na adoração é o "como" ("em Espírito e em Verdade"), conforme o ensinamento do Senhor Jesus, no texto bíblico de João, capítulo quatro. Bem disse o Mestre, em outra ocasião, que onde estiverem reunidos dois ou três (não importa em qual "embarcação", pois nenhuma é "melhor" do que a outra), em nome do Senhor Jesus, Ele ali estará, conforme promessa Sua. O que se prega contrário a isso, é heresia sectária.

Nessa vertente doutrinária, é interessante acrescentar que aqueles homens não conseguiam, com a tempestade, ver as "estrelas". Isso implica num aprendizado necessário, segundo o qual não devemos nos guiar pelas "estrelas humanas" (leia-se: "líderes" religiosos ou eclesiásticos), do contrário teremos decepções, pois Deus não dá a Sua Glória a outrem. A despeito disso, em um certo momento, Paulo (verso 35) dá início ao "partir do pão", sinalizando, com essa atitude simbólica, uma figuração da Ceia do Senhor, revelando a morte e a ressurreição do Senhor, o que lhes fez recobrar os ânimos. Tal foi o quadro rememorando a Expiação Vicária Cristológica Salvífica apta a proporcionar salvação eterna a todos os que aceitarem, independente de serem "escolhidos", conforme João 3:16, que abre espaço para todos.

Dentro daquela narrativa maravilhosa, verificar-se-á que alguns soldados se prepararam para matar os prisioneiros que saíam da "embarcação" (verso 42), revelando que, do ponto de vista profético, quem sai da "embarcação" (aqui leia-se: "denominação eclesiástica sectária"), é apedrejado, é amaldiçoado, é alvo de morte ou de promessa de morte, atitude totalmente contrária ao verdadeiro cristianismo essencial e puro. Entanto, Deus haveria de poupar os Seus servos que saem em direção ao verdadeiro Alvo: a "Ilha de Malta", dito de melhor forma: ao "Autor da nossa fé".

É hora de encerrar este pequenino texto e o faço destacando que esse capítulo 27 de Atos dos Apóstolos, alvo da abordagem de agora, termina, em seu último versículo, com uma expressão de cunho escatológico, carregada de esperança: "...e assim aconteceu que todos chegaram à terra, à salvo". Portanto, assim se cumpre o texto de João 3:16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que enviou o Seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Deus nos ensine e nos abençoe para a nossa paz. A Ele toda honra e glória para todo o sempre!

 


 

Sobre o autor:

Dr. ÉZIO LUIZ PEREIRA

Juiz de Direito – ES

Doutor em Teologia (ênfase em Soteriologia) pela Fatef/RJ

Mestre em Teologia (ênfase em Bibliologia) pelo SBTe – MG

Membro de igreja evangélica na linha protestante

Mestre em Direito das Relações Privadas pela FDC – RJ

Especialista em Direito Constitucional pela Consultime - ES

Membro da Academia Brasileira de Mestres e Educadores

Membro da Academia Cachoeirense de Letras

Practitioner em Programação Neurolingüística pelo INDESP

Palestrante, professor, articulista e escritor

Autor de quatorze obras literárias publicadas

Ex-procurador da Caixa Econômica Federal

Site: www.ezioluiz.com.br


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