Servo devedor ou servo remido? Uma escolha necessária.

09/07/2013 08:19

Por: Dr. Ézio Luiz Pereira

 

“Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”. (Colossenses 2:14)

 

Tenho dito ao longo dos dias correntes que o ser humano vai escrevendo a sua história, no percurso de sua existência, com as escolhas com as quais vai trabalhando e ninguém é culpado pelas más escolhas que o ser humano faz. Escolhe-se a vereda a percorrer, como uma decisão pessoal. Todavia uma vez escolhida, não se pode escolher as consequências daquilo que se escolheu. Decerto, uma vez feita a escolha, surge a responsabilidade pessoal do que se escolheu. Não há como fugir. Essa é a lei bíblica do plantio e da colheita. Tal é assim, igualmente, na vida espiritual. Este pequeno rabisco pretende, à luz da Palavra de Deus, considerar a indagação acima transcrita.

Com efeito, a escolha que se faz diante da indagação em foco vai determinar e demonstrar o quanto o ser humano dimensiona o Sacrifício de Cristo, o quanto ele mensura o Plano Divino Salvífico Cristológico revelado pelo Espírito Santo. Ora bem, quando o servo de Deus se sente “devedor” de algo, ele se sente culpado, derrotado, triste, submisso e cabisbaixo, necessitando de expiar a sua “culpa”, “pagando um preço”(!), esquecendo-se de que Cristo já pagou por ele o alto preço de seu pecado, no Calvário, bastando se arrepender e pedir perdão ao Pai Celestial.

Perigoso – e aqui abre-se um parêntesis – é quando uma organização eclesiástica sectarista manipuladora convence emocionalmente, com textos bíblicos descontextualizados do tecido escriturístico, de que o servo é “devedor”, para que – na necessidade de expiar uma culpa emocional advinda da infância – ele, subserviente, trabalha “voluntariamente” para a seita, que se intitula “igreja”, daí a necessidade de conhecer o real significado da mensagem bíblica. Decerto, o Senhor Jesus apresenta uma resposta interessante, transcrita abaixo.

“Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”.  (João 15:14-15)

Como se apresenta o perfil do devedor? Derrotado, envergonhado por não conseguir pagar a sua dívida, com baixa auto-estima, portador de insônia crônica, cabisbaixo, submisso, subserviente, triste, angustiado, à mercê de “agiotas espirituais”, necessitando “pagar um preço”, o que leva o ser humano a apequenar o Pacto Sacrificial Salvífico Cristológico, projetado pelo Pai, com a participação do Espírito Santo.

Para que o servo de Deus não se sentisse devedor – porquanto Deus sabia (e sabe) que essa culpa edênica (desde o Éden) original, seria um mecanismo emocional forte a ser usada pelos manipuladores religiosos – Ele revelou, nas Escrituras Sagradas, o seguinte texto que repele, de uma vez por todas, a mentalidade devedora. Eis abaixo transcrita, tal como em epígrafe.

“Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”. (Colossenses 2:14)

Pela simples leitura do texto acima, indagar-se-ia: quem aceita, como Salvador, ao Senhor Jesus e o Seu Supremo Sacrifício, pode ser considerado devedor? Para responder, volte-se novamente e atente-se para as palavras do texto. É intuitiva a resposta, para os que desejam, com seriedade, seguir a mensagem bíblica cristã, sem a formatação religiosa controladora. Então, a escolha está diante do ser humano: servo devedor ou servo remido? Depende da dimensão que se entenda e do poder ilimitado que vem da morte e ressurreição do Messias de Deus.

Deveras, a mensagem do “servo eternamente devedor” pode ser transmitida, numa linguagem hipnótica pesarosa, acompanhada de cânticos litúrgicos lentamente tristes e melancólicos, como um mecanismo emocional indubitavelmente forte. Não raro, as pessoas que foram massacradas na infância por educação repressora, sentindo-se “culpada” por tudo que acontecia ao seu redor e carregando essa “culpa inconsciente”, se curva à mensagem religiosa e passa a se sentir um verdadeiro “servo devedor” e passa a trabalhar “voluntariamente” para a organização eclesiástica sectarista, convencido emocionalmente de que está trabalhando para Deus e expiando uma dívida (que já foi paga no Calvário). Então, surge o Senhor Jesus e proclama: “… e conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (João 8:32). E acrescenta seguidamente: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Que bom que assim verdadeiramente é!

Ocorre amiúde distorção de textos bíblicos em leitura fora do contexto, tal se dá, por exemplo, quando Paulo afirma: “Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios quanto a ignorantes;” (Romanos 1:14), não lêem a explicação da alegada dívida paulina adiante: “por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma” (Romanos 1:15). Paulo não estava dizendo de um débito para com Deus; ele estava se referindo à perseguição que ele – Paulo – desencadeou, antes de ser transformado espiritualmente, contra os gregos e outros povos, por isso ele se sentia devedor desses povos. Para compensar, ele, gentilmente, propôs pregar o Evangelho a esses povos.

De um ângulo diferente, Paulo poderia ter dito: “não olhem para mim, não ‘olhem para o homem’, mas continuem devendo”, contudo ele disse:

“Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (I Coríntios 11:1), porque ele prezava o bom testemunho. Paulo se colocava como “mordomo” de Cristo e essa mordomia não implicava em dívida; era pura gratidão. Paulo não se considerava um “mordomo devedor”; ele se considerava “mordomo liberto”. Tanto que ele proclamou, em bom tom: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens” (I Coríntios 7:23).

Sob esse viés, quando Paulo se intitulou “o prisioneiro”, ele não estava se referindo ao ângulo espiritual a ser aplicado aos crentes em Jesus; ele estava afirmando o seu estado pessoal casuístico  histórico, específico dele. É preciso discernimento para uma interpretação histórico-gramatical, contextualizada e sistemática. Então, a quem interessa que o ser humano seja tristemente devedor? A resposta para abolir a tristeza de ser “servo devedor”, como bálsamo que suaviza e liberta, vem de Deus:

“O anjo, porém, lhe disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”      (Lucas 2:10-11)

A propósito do que se tem dito aqui, há uma passagem bíblica curiosa, no espaço veterotestamentário, que traz a figura, na cultura israelita dos tempos de Moisés, do “servo devedor” e do “servo remido”. Importa trazer a este estudo com o objetivo de esclarecer o verdadeiro significado do que se afirma, à luz da Palavra de Deus.

12. Quando um de teus servos, hebreu ou hebréia, te for vendido, seis anos servir-te-á, mas, no sétimo, o despedirás forro. 13. E, quando de ti o despedires forro, não o deixarás ir vazio. 14. Liberalmente, lhe fornecerás do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar; daquilo com que o Senhor, teu Deus, te houver abençoado, lhe darás. 15. Lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito e de que o Senhor, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isso te ordenou. 16. Se, porém, ele te disser: Não sairei de ti; porquanto te ama, a ti e a tua casa, por estar bem contigo, 17. então, tomarás uma sovela e lhe furarás a orelha, na porta, e será para sempre teu servo; e também assim farás à tua serva.  (Deuteronômio 15: 12-17)

Dito de forma mais explicada: nos arredores de Israel, quando havia dívida entre os irmãos, o devedor tornava servo do credor e trabalhava para ele, motivado pela relação jurídica débito/crédito. Contudo, no sétimo ano, sobretudo se um parente do devedor remisse a dívida, pagando-a, aquele servo deixava de ser devedor. Se, todavia, aquele servo, mesmo com a dívida remida, se afeiçoasse ao senhor e sentisse o desejo de permanecer com o seu senhor, ele continuava naquela casa e naquela relação afetiva, não mais como devedor, mas como servo remido.

Assim, aquele servo, aceitava um “sacrifício” (furar a orelha) e permanecia para sempre, compromissado com aquele senhor; não pela dívida, mas pela gratidão e pelo amor, pela amizade, que os unia. Era uma escolha do servo: “servo devedor” ou “servo remido”? Isso é muito sugestivo para a compreensão dessa passagem de “servo devedor” para “servo remido”. Há os que escolhem continuar como “servo devedor”, presos nas amarras religiosas sectaristas pesadas.

É hora de finalizar este pequenino e singelo rabisco – embora a empolgação do momento literário me induza a continuar com os dedos no teclado e com os olhos na tela do notebook, sozinho, no silêncio de uma noite agradável de final de junho, tendo apenas a Bíblia e uma Concordância Bíblica sobre a mesa – e o faço com alegria e com uma experiência. É que já estava, o escritor, há quase dois meses sem confeccionar artigos, quando pela madrugada, ajoelhado aos pés da cama, implorou ao Senhor: ‘Meu Pai, inspira-me a escrever. Vem segredar os teus mistérios em meus ouvidos, para que eu escreva, não de mim, mas de Tua inspiração’. Então…. surgiu este texto da pena do escritor, não mais um “servo devedor”, mas um “servo remido”. Toda honra e toda glória ao Pai Eterno.

 

Por Dr. Ézio Luiz Pereira

 

Observação do autor:

Embora a denominação eclesiástica adotada não seja relevante para a salvação e a vida espiritual, cumpre  informar que, desde o nascimento até  aos onze anos de idade (1963-1974), o escritor frequentou a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Dos doze aos quarenta e nove anos (1975-2012), portanto durante, aproximadamente, 38 anos, frequentou a Igreja Cristã Maranata (ICM/PES). Em janeiro de 2013, por uma experiência com Deus e orientação dEle, passou a frequentar a Igreja Batista.

 

Sobre o autor:

ÉZIO LUIZ PEREIRA é Juiz de Direito – ES; Doutor em Teologia (ênfase em Soteriologia) pela FATEF/RJ; Mestre em Teologia (ênfase em Bibliologia) pelo SBTe/MG; Mestre em Direito das Relações Privadas pela FDC/RJ; Especialista em Direito Constitucional pela Consultime/ES; Membro da Academia Brasileira de Mestres e Educadores; Membro da Academia Cachoeirense de Letras – ACL/ES; Membro de Igreja Evangélica; Practitioner em Programação Neurolinguística pelo INDESP/ES; Ex-Procurador da Caixa Econômica Federal; Palestrante, Professor, Articulista e Escritor, sendo autor de quatorze obras literárias publicadas.

 

Contatos do autor:

 

Site: www.ezioluiz.com.br

E-mail: juizezioluiz@gmail.com

 

 

 

 


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!