Carta 052

03/02/2016 23:44

Prezado irmão (...), que a paz do Senhor Jesus seja com todos.

Li atentamente todo o conteúdo do “Projeto Igreja ...” que você me enviou.

Inicialmente, quero parabeniza-lo pela coragem de promover tamanha mudança ao curso de sua vida e por sua disposição em trabalhar para o Reino de Deus.

Antes de fazer qualquer consideração sobre seu projeto, deixe-me contar-lhe um pouco da minha experiência pessoal e, assim, você entenderá melhor minha visão sobre novos projetos como o de vocês.

Ao deixar a Igreja Cristã Maranata (ICM) eu não fiquei vagando de igreja em igreja como um pássaro sem ninho. Também, minha compreensão do mundo espiritual não me permitia ficar desigrejado, independente e fora de uma estrutura de autoridade. Do mesmo modo que eu era uma autoridade na minha casa, com a responsabilidade pela vida de minha mulher e filhas, eu compreendia que não há relações humanas ou espirituais que não estejam sujeitas à ordem de autoridade. Esse é um princípio bíblico básico que muitos negligenciam, uns por ignorância outros por rebeldia.

Veja o que nos ensina Watchman Nee em seu livro “Autoridade Espiritual” (Ed. Vida, 2005, p. 23, 24):

“Estamos sob a autoridade dos homens, como também temos homens sob nossa autoridade. Essa é a posição que ocupamos. Na terra, até mesmo o Senhor Jesus não só se encontrava sob autoridade de Deus, mas também sob a autoridade de outros. A autoridade encontra-se em toda parte. Há autoridade na escola; há autoridade no lar. O guarda da rua, embora talvez tenha menos instrução que você, foi estabelecido por Deus como autoridade sobre você. Sempre que alguns irmãos em Cristo se reúnem, imediatamente estabelece-se uma ordem espiritual. Um leigo cristão deveria saber quem está acima dele. Alguns não sabem quais são as autoridades que estão acima deles, por isso não obedecem. Não deveríamos nos preocupar com o certo e o errado, com o bem ou o mal; antes deveríamos saber quem é a autoridade sobre nós. Quando ficamos sabendo a quem devemos estar sujeitos, naturalmente, encontramos nosso lugar no corpo. Quantos cristãos hoje não têm a menor ideia do que seja submissão! Por isso existe tanta confusão e desordem. Em consequência disso, a obediência à autoridade é a primeira lição que o leigo deveria aprender, e a obediência à autoridade também ocupa lugar de destaque no trabalho propriamente dito. (...) A obediência é um princípio fundamental. Se a questão da autoridade permanecer sem solução, nada pode ser resolvido. Assim, como a fé é o princípio pelo qual obtemos vida, a obediência é o princípio pelo qual devemos viver. Na igreja, as divisões e desentendimentos frequentes brotam da rebeldia. Para recuperar a autoridade, a obediência deve ser primeiramente restaurada. Muitos têm cultivado o hábito de assumir o papel de cabeça, mas nem sequer aprenderam a obedecer (...) Hoje, os problemas que enfrentamos são decorrentes do fato de que os homens vivem fora da autoridade de Deus.”

Conhecendo essa verdade espiritual, eu sabia que deveria me sujeitar à alguma autoridade e obedecer às suas orientações.  Por essa razão, logo me submeti voluntariamente à autoridade do Pr. Ademir. Não tenho dúvida de que fiz a coisa certa. Mesmo após deixar a Comunidade Evangélica Entre as Nações (CEEN) para iniciar a Igreja Cristã Celeiros (ICC), continuei sob os cuidados e apoio do Pr. Ademir. Inclusive, foi ele quem fez a consagração do salão que ocupamos hoje. Agora, com o seu falecimento, estou em contato com outro pastor, que faz um trabalho semelhante ao nosso e que nos serve de amparo espiritual.

Outra coisa importante que aprendi é que tanto a união como o desligamento devem ser formais. Para sair de uma denominação não basta deixar de ir lá. Um elo espiritual precisa ser resolvido. Entendo que para nos unirmos a outro grupo é necessário que nos desliguemos do anterior. Exemplo disso é a ordem do casamento: “deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher”. O novo vínculo só se aperfeiçoa no mundo espiritual com o desligamento do velho vínculo.

Também, gostaria de esclarecer a autoridade nunca é autoproclamada, mas recebida de quem tem autoridade. Se você observar como Deus concede autoridade aos homens, desde os patriarcas, sacerdotes, juízes, profetas, reis e presbíteros, perceberá que Deus observa certa ordem para investir alguém com a autoridade espiritual.

15. Moisés disse ao Senhor: 16. “Que o Senhor, o Deus que a todos dá vida, designe um homem como líder desta comunidade 17. para conduzi-los em suas batalhas, para que a comunidade do Senhor não seja como ovelhas sem pastor”. 18. Então o Senhor disse a Moisés: “Chame Josué, filho de Num, homem em quem está o Espírito, e imponha as mãos sobre ele. 19. Faça-o apresentar-se ao sacerdote Eleazar e a toda a comunidade e o comissione na presença deles. 20. Dê-lhe parte da sua autoridade para que toda a comunidade de Israel lhe obedeça. (...) 22. Moisés fez como o Senhor lhe ordenou. Chamou Josué e o apresentou ao sacerdote Eleazar e a toda a comunidade. 23. Impôs as mãos sobre ele e o comissionou. Tudo conforme o Senhor tinha dito por meio de Moisés. (Números, 27)

Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado. (Atos 14:23)

Não negligencie o dom que lhe foi dado por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros. (1 Timóteo 4:14)

Agora, veja o que diz Watchman Nee em seu livro “Autoridade Espiritual” (Ed. Vida, 2005, p. 124):

“Amados, jamais tentem estabelecer sua autoridade! Se Deus o escolher, receba sua autoridade com humildade; se Deus não o chamar, por que deveria lutar por isso? Qualquer tentativa de se estabelecer como autoridade deve ser totalmente erradicada do nosso meio. Que Deus estabeleça sua autoridade e que nenhum homem tente fazer isso por si mesmo! Se Deus realmente o designar como autoridade, você tem duas alternativas: desobedecer e retroceder espiritualmente ou obedecer e receber graça.”

Por último, quero enfatizar que Deus não apoia nenhuma rebelião. Quem financia esse tipo de coisa é Satanás, o primeiro rebelde da história do universo. Lembre-se, por exemplo, do caso do Rei Davi que não promoveu divisão no exército do Rei Saul, mas constituiu seu próprio grupo de guerreiros com homens que foram se achegando a ele sem que tivessem sido aliciados para tanto.

A esse respeito, veja o que nos ensina Watchman Nee em seu livro “Autoridade Espiritual” (Ed. Vida, 2005, p. 62):

“Quando nosso Senhor esteve na terra, sujeitou-se às autoridades governamentais como também à autoridade do sumo sacerdote. Pagou impostos e ensinou aos homens a dar a César o que era de César (Mt 22:21). Durante o interrogatório, quando o sumo sacerdote o conjurou pelo Deus vivo para que declarasse se era o Cristo, o Filho de Deus, Jesus, nosso Senhor, imediatamente obedeceu (Mt 26:63-64), reconhecendo assim em todas essas ocasiões que eles eram autoridades na terra. Nosso Senhor jamais tomou parte em nenhuma rebelião.”

Logo, creio que ninguém com um pouco de conhecimento bíblico promove reuniões com pessoas com fim de fazer uma retirada em massa de alguma igreja para começar outra. A meu ver, nada justifica tal atitude. Aqui em Brasília eu conheço várias igrejas que surgiram de divisões de suas igrejas originais. Mas, eu sei que é possível começar do zero, embora seja bem mais difícil.  

A propósito, antes de deixar a ICM não falei sobre minhas intenções com nenhum outro membro da igreja. E quando saí não levei ninguém comigo. O mesmo ocorreu na minha saída da CEEN. Não fiz nenhum tipo de movimento para sair de lá com um grupo formado. Meu afastamento foi paulatino. Primeiro fui substituído na igreja local que eu pastoreava e fiquei apenas auxiliando o Pr. Ademir na igreja que ele pastoreava. Somente depois de 6 meses formalizei meu desligamento da CEEN e isso com o conhecimento e consentimento do meu pastor que, a propósito, continuou sendo meu pastor.

Lembro-me que iniciei a Igreja Cristã Celeiros com apenas uma pessoa que não estava ligada a nenhuma outra igreja, o Manoel. Ao iniciar as reuniões na sala do apartamento do Manoel, fizemos planos para visitar algumas pessoas que estavam desigrejadas. Em seguida, foram surgindo outras oportunidades de visita a pessoas não-crentes que estavam precisando de assistência espiritual. Hoje, estou precisando de obreiros para me ajudarem na assistência aos que estão se achegando, mas nem assim assedio pessoas integradas em outras igrejas.

Inclusive, Deus mostrou que eu estava sendo muito rigoroso com algumas pessoas que me procuravam. No segundo semestre de 2015, recebi uma ligação do Pr. Ademir que me disse o seguinte: “varão, Deus me deu um sonho com você e eu queria transmiti-lo. Eu vi que a Igreja Cristã Celeiros estava muito grande, mas você estava com as portas fechadas”. De fato, pensando em dedicar-me mais aos membros da ICC e em fortalecer internamente minhas estruturas, eu havia encerrado toda comunicação com pessoas que queriam fazer contato comigo pelo site ou por e-mail. Além disso, eu não facilitava as coisas para grupos que desejavam unir-se a nós. Mas, depois do contato do Pr. Ademir passei a rever minhas atitudes e, no final do mês passado, “abri nossas portas”.

Bom, agora que você já sabe um pouco mais da nossa visão, posso lhe dizer o que achei do seu projeto.

Em sua declaração de propósitos há a seguinte afirmação:

“A princípio, fortalecer a fé de irmãos que se encontram insatisfeitos com a Igreja Cristã Maranata. Insatisfação esta que não diz respeito a questões de relacionamentos pessoais, mas sim a divergências doutrinárias. Destacando que tal procedimento não configura ‘pescar no aquário alheio’. Em um segundo momento, expandir o Evangelho Genuíno de Cristo a tantas pessoas quanto puder.”

Amado, de coração, eu abandonaria esse propósito. No seu lugar eu gastaria o meu tempo procurando ajudar os que precisam de ajuda. Há muitas pessoas que não conhecem o evangelho e outra grande quantidade de homens e de mulheres decepcionados com a religião de um modo geral. Esses, sim, serão eternamente gratos se você lhes estender a mão, especialmente se estiverem no fundo do poço. Se você se focar apenas no que diz ser o “segundo momento” e fizer um trabalho espiritual sério, comprometido com os princípios do evangelho, Deus o honrará. Eventualmente, se um ex-membro ou membro da ICM o procurar, receba-o bem, com toda consideração, como é devido a todas as pessoas, mas lembre-se que eles têm um alto conceito de si mesmos e raramente precisam de nossa ajuda. Eu mesmo já tentei ajudar alguns que eu pensava que precisavam de ajuda e posso lhe afirmar que só recebi incompreensão em troca do meu esforço. Essa é a minha experiência.

O segundo slide de seu projeto que eu queria comentar diz respeito às doutrinas que você pretende combater. Vou reproduzir a seguir suas palavras:

“QUAIS AS PRINCIPAIS DOUTRINAS DISSIDENTES (insatisfações)?

- clamor pelo sangue de Jesus;

- Consulta à palavra;

- Meios de graça;

- Batismo com o Espírito Santo;

- Batismo nas águas;

- Dons espirituais;

- Palavra revelada;

- Ministério leigo;

- Marcas do passado.”

Meu irmão, não vejo com bons olhos a ideia de se começar um trabalho afirmando-se dissidente. Isso soa como uma rebelião. Lembre-se que os irmãos da Igreja Maranata não são nossos inimigos. Desde que saí da ICM nunca fiz uma reunião, culto ou seminário para combater doutrinas da Maranata. Montar uma igreja com o propósito de combater doutrinas de sua ex-denominação é, a meu ver, um equívoco. Se você quer afirmar sua posição doutrinária, minha sugestão é que você escreva um livro ou construa um blog para apresentar seu modo de interpretar as escrituras sagradas. E, mesmo nesse caso, prepare-se para enfrentar a incompreensão das pessoas.

No caso da liturgia que você pretende adotar, acho que não é necessário fazer comparativos com a adotada pela ICM. No dia que alguém visitar a igreja saberá qual a sua opção litúrgica.

Por fim, amado, não ficou claro para mim quem será o pastor a guiar o rebanho nesse seu projeto de igreja. Por essa razão fiz as considerações iniciais sobre autoridade. Considere seriamente essa questão, pois se você pretende ser um defensor do evangelho, é bom dar o exemplo quanto à obediência de seus princípios fundamentais.

No mais, desejo sucesso a você em todo o seu trabalho!

O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te conceda graça; o Senhor volte para ti o seu rosto e te dê paz.

Brasília, em 3 de fevereiro de 2016.

Pr. Sólon


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