O dízimo de Abraão

O dízimo de Abraão

Após ser chamado por Deus, Abraão saiu de sua terra, Ur dos caldeus, e mudou-se para Harã, permanecendo lá até a morte de seu pai (Gn 11:31-12:5; At 7:2-4). Ao partir para a terra de Canaã, levou com ele a sua esposa Sara e o seu sobrinho Ló, que lhe era como um filho, uma vez que seu irmão falecera deixando Ló aos seus cuidados. Abraão levou, também, todos os bens que ele havia adquirido e as pessoas que lhe foram acrescentadas em Harã (Gn 12:5). Com o passar dos anos, tanto Abraão como Ló enriqueceram e possuíram grandes rebanhos, de modo que houve contenda entre os empregados de ambos. Por isso, decidiram pela separação (Gn 13:1-18). Abraão ficou em Canaã e Ló dirigiu-se para os limites da cidade de Sodoma (Gn 13:12).

 

Em razão de um conflito na região, cinco reis, cansados de servir por doze anos ao rei de Elão (Quedorlaomer), rebelaram-se. Quedorlaomer reagiu e convocou outros três reis para conter a rebelião. Esta guerra ficou conhecida como “A guerra de quatro reis contra cinco” (Gn 14:1-17) e resultou na vitória de Quedorlaomer sobre os rebeldes. Uma das cidades a rebelar-se foi Sodoma, onde habitava Ló, sobrinho de Abraão. Ló foi levado cativo juntamente com os demais habitantes de Sodoma e todos os bens da cidade foram tomados como despojo de guerra (Gn 14:12).

 

Ao saber que seu sobrinho havia sido preso, Abraão decidiu libertá-lo. Para isso, ele reuniu 318 homens, criados em sua casa, e contou, também, com a ajuda de três aliados, os irmãos Manre, Escol e Aner, governadores das planícies dos amorreus. Juntos perseguiram os invasores de Sodoma e recuperaram tudo o que havia sido levado, tanto os habitantes de Sodoma como os seus bens (Gn 14:16).

 

Ao retornar vitorioso dessa batalha, vieram ao seu encontro o sacerdote Melquisedeque, rei de Salém, e o rei de Sodoma. Nesse encontro, Melquisedeque ofereceu a Abraão pão e vinho, além de abençoá-lo e dar graças ao Senhor por aquela grande vitória. Por sua vez, Abraão deu-lhe o dízimo de tudo, ou seja, do despojo que vinha trazendo daquela peleja (Gn 14:18-20).

 

Não há informação no texto se Abraão trouxe consigo apenas o que havia sido levado por Quedorlaomer (Gn 14:11) ou se trouxe os bens dos derrotados. O que se sabe é que, “de tudo” ele tirou 10% e entregou a Melquisedeque. Está claro, também, que, depois de retirar o dízimo, as despesas que teve com seus homens e a parte devida aos reis que o apoiaram naquela batalha (Gn 14:24), Abraão devolveu ao rei de Sodoma o que lhe pertencia. Apesar do rei de Sodoma ter lhe pedido que devolvesse apenas os habitantes de sua cidade, Abraão devolveu-lhe, inclusive, os bens materiais porque não quis nenhum tipo de enriquecimento às custas da fraqueza ou desgraça dos outros, senão vejamos:

 

“21 Então, disse o rei de Sodoma a Abrão: Dá-me as pessoas, e os bens ficarão contigo. 22 Mas Abrão lhe respondeu: Levanto a mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra, 23 e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; 24 nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão.” (Gn 14:21-24, grifo nosso).

 

Assim, apesar do risco em que colocou a sua vida e a de seus homens, Abraão não quis tirar nenhum proveito daquela situação.

 

Desse contexto, podemos, agora, iniciar nossas reflexões.

 

Referida história bíblica tem sido utilizada para defender que os dízimos foram instituídos antes da Lei de Moisés e, por isso, integraria o período da graça, subsistindo mesmo que alguém entenda que a Lei foi abolida com a morte e a ressurreição de Jesus.

 

Para o cristão, familiarizado com os ensinos bíblicos, não é difícil compreender que, mesmo um texto histórico, pode conter ensinamentos, princípios de Deus e conteúdo profético embutido. De fato, essa passagem bíblica histórica não destoa dos princípios bíblicos explícitos tanto no Velho como no Novo Testamento, o que somente confirma que Abraão tinha um espírito excelente, perfeitamente alinhado com o Espírito de Deus.

 

Podemos notar na passagem citada que Abraão ama sua família, luta por ela, dispondo sua própria vida em favor dos outros. Além de não ser materialista, é corajoso o suficiente para fazer o que acredita que é certo e justo. O caráter de Abraão, portanto, revela amor e altruísmo acima de interesses materiais. Ele não é ladrão, não é aproveitador, não é ganancioso, não quer o que não é seu ou o que não tenha adquirido com seu próprio trabalho. Ademais, preocupa-se com o seu bom nome.

 

Não é preciso muito esforço para encontrar essas mesmas virtudes em Jesus e no apóstolo Paulo, de modo que me arrisco a afirmar que o procedimento de Abraão está perfeitamente recepcionado pelo contexto das Escrituras Sagradas, com ênfase no Novo Testamento. Do mesmo modo, podemos afirmar que essa passagem bíblica traz em sua narrativa um aspecto profético, qual seja: o sacerdócio do Messias seria superior à Lei, porque viria de um sacerdócio superior ao sacerdócio dos levitas. Ora, se o superior abençoa o inferior, quando Melquisedeque abençoa Abraão, abençoa também Levi, que estava nele (seu futuro descendente) demonstrando que lhe era superior. Esse entendimento está confirmado tanto no Velho como no Novo Testamento. Em um salmo profético, o Espírito de Deus já havia revelado que o Messias seria um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque:

 

“O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” (Sl 110:4, grifo nosso)

 

No Novo Testamento, a carta escrita aos Hebreus revela a consumação da profecia, ligando-a a Jesus, senão vejamos:

 

“1 Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou, 2 para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja, rei de paz; 3 sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente. 4 Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos. 5 Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm mandamento de recolher, de acordo com a Lei, os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora tenham estes descendido de Abraão; 6 entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre eles recebeu dízimos de Abraão e abençoou o que tinha as promessas. 7 Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior.” (Hb 7:1-7, grifo nosso).

 

Entretanto, há uma ressalva a se fazer quanto à questão do dízimo. Tanto na passagem original do Velho Testamento como na citação da carta aos Hebreus, a ênfase está no Sacerdócio Supremo, ou seja, na autoridade conferida a Jesus para suplantar a Lei e constituir uma nova aliança no seu sangue, abrindo um novo e vivo caminho para o homem ter os seus pecados perdoados e a restauração da comunhão com Deus.

 

Oliveira (2005, p. 91), referindo-se a Hb 7:1-8, acrescenta que:

 

“O autor desta carta, certamente um judeu bem treinado nas técnicas rabínicas de argumentação, desenvolve nesta passagem um raciocínio cujo único objetivo é provar a superioridade de Cristo como sacerdote. Essa é uma tarefa realmente difícil, pois os sacerdotes descendentes de Arão receberam suas ordens diretamente de Deus, por razões que só a Sua vontade conhece. De modo que não existem pontos possíveis de apoio quando se pretende derrubar a posição solene e extremamente elevada de um sacerdote segundo a linhagem de Arão. De fato, o autor da carta explora o único ângulo possível: Arão é apenas um homem, enquanto que Jesus Cristo é filho de Deus. Assim, era importante para a sua argumentação vincular em um único argumento estas duas ideias em princípio separadas: o sacerdócio e a linhagem não humana.”.

 

Com essas observações, é preciso destacar que a questão do dízimo nesse contexto é secundária, um pano de fundo para a apresentação de um sacerdócio. A passagem de Abraão com o sacerdote Melquisedeque tem um conteúdo profético específico e não serve como fundamento para se afirmar que Abraão era um dizimista ou que os dízimos haviam sido instituídos desde aquele tempo.

 

Então, por que Hb 7:6 diz que Melquisedeque “recebeu dízimos de Abraão e abençoou o que tinha as promessas”? Alguém poderia dizer que o termo no plural indica continuidade, periodicidade ou constância, mas esse detalhe não encontra confirmação em nenhum outro texto bíblico, de modo que só podemos tirar conclusões desse plural em seu próprio contexto, da seguinte forma: o dízimo de tudo representa 10% sobre o despojo animal; 10% do despojo de cereais; 10% do despojo de metais (ouro, prata etc.); e assim por diante. Logo, temos dízimos de um mesmo despojo, o que, no total representa o dízimo de todo o despojo.

 

É certo que não sabemos de detalhes que não constam na história bíblica, mas devemos fazer afirmações apenas com base no que está escrito e não com base em probabilidades. Por isso, tudo o que podemos afirmar é o seguinte:

 

  1. Abraão deu dízimo de tudo o que trouxe de uma batalha (Gn 14:20) e, ao que se depreende do texto bíblico, não lhe pertencia originalmente (Gn 14:20-24);
  2. o texto bíblico examinado traz princípios morais e religiosos confirmados no Novo Testamento e na pessoa de Jesus (família, amor, altruísmo, desprendimento material, honestidade, justiça e bom nome); e
  3. a passagem examinada tem um conteúdo profético externado pelo salmista (Sl 110:4) e pelo escritor da carta aos Hebreus (Hb 7:1-7); e que essa profecia serviu para colocar o sacerdócio de Jesus acima do sacerdócio levítico, dando-lhe autoridade para substituir a Lei pela graça, em uma nova aliança (Hb 7:11-22).

 

Afora essas constatações, qualquer afirmação perde força bíblica e, sem amparo das Escrituras Sagradas, tudo o mais pode ser pretexto para a sustentação de heresias. Exemplo disso é a afirmação de que Abraão era dizimista.

 

Não há qualquer evidência bíblica de que Abraão tenha se tornado um dizimista do sacerdote Melquisedeque. Muito menos que ele tenha devolvido qualquer percentual do produto das rendas de seu trabalho.

 

Ficando apenas com o que está escrito, Abraão entregou, uma única vez, uma oferta de 10% do despojo que, na verdade, era a recuperação do patrimônio que pertencia a um outro rei. Fez isso por reconhecer que Deus o havia honrado naquela peleja, ou seja, fez isso por gratidão. Essa oferta de gratidão foi chamada de dízimo exatamente porque o percentual oferecido foi de 10%.

 

Também, importa destacar que a oferta de Abraão não possui os mesmos fundamentos do dízimo que é ensinado e praticado pela igreja do nosso tempo, seja ela tradicional, pentecostal ou neopentecostal. A oferta de Abraão foi um ato de gratidão pela vitória recebida, ou seja, uma oferta por ter sido abençoado – “recebeu, por isso deu”. De modo diverso, os fundamentos das igrejas evangélicas para o recebimento do dízimo hoje são: assistência aos santos, provisão para a continuidade dos trabalhos da igreja, repreensão do devorador e prosperidade material. Ou seja: “dão para receber”.

 

Comparando-se os fundamentos da oferta de Abraão com os fundamentos do dízimo no período da Lei, podemos igualmente concluir que são distintos, pois naquele tempo a prática de dizimar e de ofertar decorria da obediência à Lei e a desobediência implicava nas maldições previamente designadas por Deus.

 

Sob a Lei o dízimo era uma obrigação e não um ato de gratidão e voluntariedade do dizimista. De modo diverso, Abraão ofertou por livre e espontânea vontade.

 

Além de Abraão não ser dizimista, como querem dizer os pregadores modernos, o fato inegável é que se o dízimo constituísse o período da graça, simplesmente porque foi citado em duas passagens antes da Lei, a circuncisão também seria um preceito da graça, porque também foi instituída antes da Lei de Moisés (Gn 17:10-27).

 

Em síntese, a oferta de Abraão (10% do despojo de uma guerra) foi um ato voluntário, de gratidão, mas isolado. Não é possível associá-lo ao dízimo instituído pela Lei, tampouco se pode afirmar que a prática do dízimo tenha sido instituída antes dela, especialmente porque os fundamentos para a cobrança de dízimos tanto no período da Lei como pela igreja hoje, seja a tradicional, a pentecostal ou a neopentecostal, são diferentes. Ligar a primeira coisa à segunda é tentar colocar a roda de um caminhão em um fusca.

 

Texto extraído do Capítulo I do livro "Dízimos e Ofertas: pretextos dos impiedosos".


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